Com catálogo em mão, de porta em porta, revendedores autônomos de perfumes,cosméticos, roupas, acessórios ou utensílios domésticos desbravam o mercado de vendas diretas do País. Pouco investimento e muita determinação fazem dos profissionais lojas ambulantes. Atentos às exigências dos clientes, os revendedores precisam enfrentar os desafios do negócio com empreendedorismo.
Os números do setor apresentam motivos para comemoração. Segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (Abevd), o ramo movimentou R$ 10,4 bilhões no ano passado, registrando crescimento de 27,5% em relação a 2003. O País tem projeção externa e, segundo a Federação Mundial das Associações de Vendas Diretas (WFDSA, em inglês), ocupa a 7.ª colocação no ranking internacional. As vendas diretas garantem renda a milhares de brasileiros. Ainda em 2004, o número de empreendedores chegou a 1,5 milhões ante 1,3 milhões no ano anterior. Contrariando o atual ritmo de desacelaração da economia do País, a renda média dos revendedores cresceu 20% neste primeiro semestre e atingiu R$ 550 por mês
Para o presidente da Abevd, Rodolfo Guttilla, a geração de rendimento por meio de vendas diretas é positiva por conta do desemprego nos grandes centros urbanos e pela ausência de exigências para o exercício da atividade.
Em muitos casos, as vendas diretas representam uma complementação da renda fixa. Mas o vendedor pode esperar um bom retorno financeiro do negócio.No entanto, se aventurar nas vendas diretas e partir de porta em porta em busca de clientes e, conseqüentemente, renda exige cuidados.É preciso organização, fazer uma boa agenda, conhecer os clientes e ter estoque.
Cama, mesa, banho e até suco exótico aos clientes A força das vendas diretas ultrapassa os tradicionais produtos dos catálogos de cosméticos. Empresas investem na variedade de oferta para atender um mercado cada vez mais crescente.
De porta em porta, dinheiro no bolso Os negócios em vendas diretas têm a capacidade de unir histórias de vidas distintas como a do ex-jogador de futebol André Cardoso da Silva, de 27 anos, da dona de casa Maria Rodrigues Soares, de 41, e da economista Lídia Toscano de Britto, de 48. Objetivo dos empreendedores: conquistar novos clientes. E, embora pertençam a classes sociais distintas e tenham formações diferenciadas, ambos são profissionais que investem e acreditam nos resultados das vendas porta a porta.
A dificuldade para ingressar em grande time de futebol fez com que André Cardoso da Silva se aventurasse em ramo de negócio majoritariamente feminino. Nos momentos de necessidades, em paralelo ao esporte, ele precisou contar com as vendas diretas como fonte de renda para o sustento da família. Em 1994, aos 18 anos de idade, o ex-atleta teve oportunidade no Santos. “Como eu não tinha condições de pagar a passagem, tive de parar de treinar e fui dispensado”, conta Silva. Em 2001, participou do Campeonato Catarinense, ganhando R$ 800 por mês.
No final de 2002, Silva recebeu proposta de trabalho em clube de Portugal, mas, como os rendimentos eram insuficientes para a manutenção da mulher e dos dois filhos, retornou ao Brasil em um mês.No entanto, antes de viver no exterior, o ex-jogador de futebol já apresentava bons resultados na comercialização por venda direta. “Comecei vender e me destacar.
No primeiro mês, foram R$ 6 mil em venda. Ganhei R$ 1.250”, festeja ainda hoje Silva.De volta ao País, André Silva trabalhou por um em indústria química e, simultaneamente, voltou a vender produtos. Hoje a renda do ex-atleta vem somente dos negócios em vendas diretas. “Consigo manter meus dois filhos e pagar todas as minhas contas. Agora estou pensando em montar uma equipe de revendedores”, almeja.
LONGA DATA
A relação entre a dona de casa Maria Rodrigues Soares e a Hermes vem de longe. “Conheço a empresa faz 20 anos, desde quando eu morava no interior do Ceará”, diz. Há quatro anos, Maria tem renda oriunda exclusivamente da venda de produtos do catálogo de sua empresa.Segundo a revendedora, não existem regras. “As pessoas compram roupas, acessórios, itens variados. Vendo de porta em porta, na frente da escola, em reuniões de amigos”, conta. Quando necessário, Maria tem de deixar afazeres domésticos de lado e se dedicar ao negócio. “Eu trabalho de segunda a segunda, principalmente nos finais de semana.” O ganho é variável e, em média, Maria fatura R$ 200 para complementar a renda famíliar. “Há meses em que dá para vender mais, mas sempre consigo pagar meu plano de saúde e o do meu filho.”
REALIZAÇÃO
A economista Lídia Toscano de Britto renunciou a 15 anos de trabalho na Caixa Econômica Federal para se dedicar exclusivamente à experiência de ser mãe de trigêmeos. “Foi uma luta muito grande para eu conseguir ter meus filhos após 17 anos de casamento ”, diz. Agora, após nove anos, Lídia retorna aos poucos à atividade e hoje é uma consultora de venda direta.Lídia foi estimulada a entrar no setor no fim do ano passado por uma amiga que atua em vendas diretas há 8 anos. “Comecei a vender para familiares e amigos. Peguei uma época boa e fiquei animada com as vendas de Natal”, conta. A partir de janeiro, a economista passou a ver as vendas como negócio. “Converso com consultoras mais experientes para aprender cada vez mais.”O rendimento médio alcançado por Lídia é de R$ 600 por mês. A economista acredita que ainda não formou a base de clientes e que, por isso, as vendas estão instáveis. “Eu preciso estar atenta e diversificar meu público. A cada mês eu encontro um nicho novo”, conta.
Revendedoras transformam catálogos em bom negócio O investimento na criação de estoque para pronta entrega fez de Célia Brandão, de 40 anos, uma campeã de vendas dos produtos. Atuando no setor desde os 22 anos de idade, a consultora tem hoje escritório no Itaim Bibi para atender 1,5 mil clientes. Além da estrutura, Célia conta com o trabalho de mais 30 revendedoras.Há dez anos, a família entrou para o negócio. “Quando meu marido saiu do emprego, investimos, arriscamos e acreditamos”, conta Célia. Atualmente, o filho também colabora nas vendas e juntos têm rendimento médio mensal de R$ 6 mil. Célia conta ainda que vendas diretas exigem dedicação e abandono de alguns hábitos. “Às vezes não reunimos a família para jantar. Dizem que quem trabalha por conta própria faz seu horário, mas não são bem assim as coisas.”
Segundo a consultora, o empreendimento exige empenho da revendedora. “É preciso dedicação, esforço, saber receber os clientes e elaborar os pedidos”, conta Célia.A estudante de publicidade e propaganda Maria Cristina Pires, de 25 anos, também pretende crescer no setor de vendas diretas. Atualmente, ela fatura em média R$ 2 mil por mês e tem 50 revendedoras.As vendas de produtos ajudaram a complementar a renda familiar e a custear a faculdade. O perfil de Cristina estimulou o negócio. “Eu acho que sou muito comunicativa e tento convencer a cliente da necessidade do produto”, conta.Animada com o crescimento promissor, Maria Cristina faz planos ambiciosos a curto prazo. “Eu quero abrir um escritório e ter mil revendedoras até o final de 2007.”
fonte: Estado de São Paulo - 05 de junho de 2005




